quinta-feira, 29 de maio de 2014

Porque hoje é o dia da Espiga
"“Volta comigo para casa, Luisa
Subi, invisível, pelas escadas rolantes do metro. Tinha de ir a casa, fui buscar o teu vestido. Era aquele, o das bolinhas brancas e fundo azul escuro. Já o trazia no saco, cheirava a alfazema, cheirava a ti. 
Nos sapatos, nas meias, nem pensei, só no vestido.
Era o dia da espiga, lembras-te? Eu esperava por ti à saída do metro, com um raminho de espigas e papoilas rubras. No prédio do consultório havia uma pastelaria, à porta uma ciganita vendia as espigas que tirava de um alguidar de plástico azul.
- Tenham calma. Vai fazer mais uns exames e quando tivermos os resultados, falamos melhor.
Tinhas medo, nunca gostaste de hospitais.
A menina Rosa, uma auxiliar angolana enchia-te de beijinhos, os outros passavam.
- Senhora , hora da visita, chegou marido.- cantava ela.
Mal me vias à porta da enfermaria, mesmo muito doente, ficavas radiosa. Não sei como fazias aquilo, Luísa.
A minha Luísa, a rapariga que beijei há quarente anos no Miradouro de Santa Luzia.
- Vieste.- dizias sempre e depois perguntavas ansiosa - Dormiste bem ? Já comeste hoje?
- Dormi, dormi, agarrei-me à almofada que cheira a ti. Mas vou dormir melhor quando voltares comigo para casa.
- Um dia, um dia volto contigo para casa.
Voltaste hoje, aninhada no meu coração. Eu subi as escadas do metro embrulhado na minha dor, mas contigo dentro. Era necessário ir buscar o vestido, era aquele, o das bolinhas brancas.
Depois, quando a função terminou, voltamos os dois para casa mais tranquilos. A partir desse dia passarias a ver o mundo através dos meus olhos.-GVP “

quarta-feira, 28 de maio de 2014

"Para uma pessoa de quem gosto muito

Os seus olhos são duas vibrantes águas marinhas. Não há equívocos, nem expectativas ocultas, tudo ali é transparente como a água límpida do mar. Naquele oceano de emoções não vi peixes, apenas muito amor maternal e paixão pela arte que faz. 
Pensando bem, vi dois peixes sim, as suas mãos. Acho que nem deu conta como elas nadavam emocionadas enquanto me contava tudo. 
Vai ser um sucesso "- GVP

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Numa única coisa o Seguro tem razão, é preciso retirar consequências políticas deste resultado eleitoral.
Ele que vá para casa e leve todos os outros políticos , façam todos um retiro e com honestidade, pergunte cada um a si mesmo o que tem andado a fazer...
Os portugueses andam tristes e cá para mim não houve vencedores, só consigo ver perdedores.

Da esquerda para a direita e da direita para a esquerda só vejo gentinha arrogante, todos incapazes de descer à Terra. 
Estou farta de tanto cinismo! -GVP

terça-feira, 20 de maio de 2014

Pedir é sempre mais difícil...

"Primeiro era apenas uma sombra fugaz mas depois ficou.
Uma sombra grande a ofuscar o Sol.
Têm sido dias de chuva e vendaval.
Quero beber da Tua luz.
Mas a imensidão só me devolve o eco solitário da minha prece.
Tenho procurado mil e um caminhos para chegar a Ti ou talvez não…
Sinto os Teus sinais em toda a parte, sempre visíveis ao Coração.
Porém, não consigo ver.
Porque não me respondes PAI? "-GVP

sábado, 17 de maio de 2014

Um dia tive a ingenuidade de acreditar que podia escrever romances...
Este é mais um texto de uma história que acabei por não escrever

"A importância de um par de sandálias rasas.

Saí na direcção contrária, simplesmente não me apetecia voltar para casa. Fui ao lugar onde tu não estavas, a desafiar o destino mas a saber perfeitamente que nada iria acontecer.
Entrei numa livraria, abri ao acaso um livro, lá estava o depoimento corajoso de alguém que está a morrer e agarra os segundos que lhe restam com toda a dignidade. Este homem não tem medo, deixará um grande testemunho de amor aos seus. Tem exactamente a tua idade.
E tu? Não era nada, foi só um pequeno susto mas continuas a desperdiçar as horas, os dias da tua vida…
Voltei para a rua, final de tarde tranquilo, há esplanadas ensolaradas e árvores com sombras refrescantes, ouvi a campainha de uma bicicleta e saí da ciclovia.
Passei pelos lugares daquela tarde terrível, chuviscava, lembras-te? Lá estava o café de bairro.
Voltei à calçada portuguesa e vi outra vez um lugar da nossa juventude, já não existe mas que me lembre nunca teve qualquer importância para nós.
Agora caminho finalmente para casa. Que ironia, fica do outro lado da rua.
Todos os dias lá está ele, o beijo arrebatado que me deste. Os teus braços sem coragem de me largar, foram o grito desesperado de FICA enquanto me dizias ADEUS.
Nesse dia acabei por ser eu quem te afastou, com determinação mas nunca te expulsei do meu coração. Tu sabes…talvez um dia…será até ao último dia das nossas vidas, eu sei que tu também sabes._GVP"

sexta-feira, 16 de maio de 2014

A volubilidade desta vida, que tão depressa transforma o hoje no ontem de amanhã, deixa-me já o coração repleto de saudades do presente.  Posto isto, terei de viver intensa e verdadeiramente o hoje. Que Deus me inspire nesta tarefa.-GVP

Fotografia de András Sumegi


Uma Dor ( hoje lembrei-me desse tempo)

É húmido e escuro e frio e cinzento.
Podia ser uma trincheira enlameada, não é.
 Neste lugar absolutamente nada protege.
É apenas uma imensidão de vazio, uma vastidão de terra do nada e eu.
Mas do outro lado da rua há um jardim, com aromáticas flores e verdes recantos, onde  eu ainda vivo quase toda.-GVP

domingo, 11 de maio de 2014

Apenas uma simples rampa...

Hoje de manhã, a tomar o pequeno almoço num do meus locais favoritos de Lisboa, reparei na dificuldade com que algumas mães subiam as escadas com os seus carrinhos de bebé.
Lembrei-me do meu sobrinho Francisco e das outras pessoas com a mobilidade reduzida.
Porque é que há pessoas que estão impedidas de frequentar certos locais só porque existe uma estúpida escada?

Depois de elogiar muito este local, pedi ao dono que colocasse uma simples rampa, um investimento muito pequeno mas que lhe vai alargar o leque da clientela.

Assim, seremos mais pessoas felizes a degustar as delícias da Choupana. GVP

segunda-feira, 5 de maio de 2014

"Todos os dias agradeço ao imponderável a minha alegria de estar viva, sem ele a previsibilidade já me teria morto"- GVP