Mostrar mensagens com a etiqueta Os meus textos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Os meus textos. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013


As Minhas Origens 

Durante todo o dia o sol assassino fez derreter o alcatrão que rasga a planície. Ao entardecer, já doce e dourado, libertou o aroma dos laranjais.
 A minha terra também cheira a Azhar como os pomares de Andaluzia.
Chegava a noite, o sol era  uma enorme e luminosa laranja no horizonte e  os homens cantavam.
As vozes do Alentejo que me deixam nostálgica, tive saudades do futuro, tive saudades daquele dia…
Uma vila branca, um cântico humano chamando  os fiéis para a oração da tarde, o sol já não queima,  uma mulher de lenço preto  dobra uma  esquina.
Mais em frente, às portas do Sahara, com o sangue a pulsar feliz nas minhas veias, recordei  aquele  dia em que tive saudades, em  os homens cantaram  e a  terra cheirou a laranjas. Então compreendi, tinha finalmente chegado a casa.
 Ao dobrar uma esquina , adivinhei a sombra dos meus dos meus avós mais remotos.-GVP

.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Conversas com a minha vida

I
No limiar das coisas


E foi assim, de repente, quase aos cinquenta anos que descobri que estava no limiar das coisas, na soleira da porta, à entrada.
Há em mim uma inquietude que sempre me fez correr atrás de ti.
Todos os dias te abracei inteira, pelo bem e pelo mal que me fizeste, sem nunca te culpar porque os caminhos eram os meus.
Agora, ao fim de tantos anos, finalmente as escolhas são tuas. Pedes-me paciência.
E o tempo, Vida?


Esta nossa conversa surge assim naturalmente, nascida do tédio dos meus dias iguais. Recuso-me, Vida a não ter uma palavra a dizer.
Hoje é o dia da minha  sombra cinzenta. Aquela que mascaro, aquela que vou  pintando de cores alegres, consciente  mas sem lamúrias, sem sentimentos de auto comiseração.  Eu sou assim, tu sabes Vida vou-te desafiando sempre.
Antigamente, mesmo quando entrava nos lugares mais escuros, eram as minhas escolhas, nunca te culpei de nada, lambi as feridas e segui em frente mas não era  coragem, apenas tentava ser justa contigo.
Acho que já quis ser tanta coisa, nunca fui quase nada. Não podia, estava a fugir de ti. Fui experimentando  outras vidas, vivi dores que não eram minhas até  ter a coragem de te enfrentar. Tinha-te deixado lá atrás, em suspenso.
E sabes, Vida? Afinal era verdade ela continuavas  lá, latente, pulsante, à espera de ser vivida.
Poderás fazer o favor de me deixar entrar ou terei que esperar pela nova viagem?
Eu sei, não é disso que se trata, esperar pela nova viagem. A Vida é esta.

Pedes-me para ser paciente, serei. Mas tenho medo do medo do outro. Aquele medo que só a dor da saudade pode vencer. Quantas Vidas serão precisas para ouvir “Fazes-me falta, aqui, agora, não amanhã?”

Os dias que pesam

Alguns dias pesam tanto.
Porque creio e quero sempre,
nunca fico nos lugares comuns.
Poucas foram as vezes que entrei.
E eu no limiar das coisas e Ela a pedir placidez.
Não posso, sou alada.
Sou do sonho e morro do peso dos dias iguais.-GVP