Conversas com a minha
vida
I
No limiar das coisas
E foi assim, de repente, quase aos cinquenta anos que descobri que estava no limiar das coisas, na soleira da porta, à entrada.
Há em mim uma inquietude que sempre me fez correr atrás de ti.
Todos os dias te abracei inteira, pelo bem e pelo mal que me fizeste, sem nunca te culpar porque os caminhos eram os meus.
Agora, ao fim de tantos anos, finalmente as escolhas são tuas. Pedes-me paciência.
E o tempo, Vida?
Esta nossa conversa surge assim
naturalmente, nascida do tédio dos meus dias iguais. Recuso-me, Vida a não ter
uma palavra a dizer.
Hoje é o dia da minha sombra cinzenta. Aquela que mascaro, aquela
que vou pintando de cores alegres,
consciente mas sem lamúrias, sem
sentimentos de auto comiseração. Eu sou
assim, tu sabes Vida vou-te desafiando sempre.
Antigamente, mesmo quando entrava
nos lugares mais escuros, eram as minhas escolhas, nunca te culpei de nada, lambi
as feridas e segui em frente mas não era
coragem, apenas tentava ser justa contigo.
Acho que já quis ser tanta coisa,
nunca fui quase nada. Não podia, estava a fugir de ti. Fui experimentando outras vidas, vivi dores que não eram minhas até
ter a coragem de te enfrentar. Tinha-te
deixado lá atrás, em suspenso.
E sabes, Vida? Afinal era verdade
ela continuavas lá, latente, pulsante, à
espera de ser vivida.
Poderás fazer o favor de me
deixar entrar ou terei que esperar pela nova viagem?
Eu sei, não é disso que se trata,
esperar pela nova viagem. A Vida é esta.
Pedes-me para ser paciente,
serei. Mas tenho medo do medo do outro. Aquele medo que só a dor da saudade
pode vencer. Quantas Vidas serão precisas para ouvir “Fazes-me falta, aqui,
agora, não amanhã?”
A vida é feita de ciclos e de etapas. O início de um novo projecto tem sempre o entusiasmo de quem se encontra determinado a enfunar velas e a lançar um barco a navegar em águas plenas de mudanças. Germana, estarei ao teu lado a acompanhar o crescimento do teu blog, com o entusiasmo da amizade de uma vida. Tenho a certeza que da tua lavra a colheita será sempre bonita. CRV
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