terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Conversas com a minha vida

I
No limiar das coisas


E foi assim, de repente, quase aos cinquenta anos que descobri que estava no limiar das coisas, na soleira da porta, à entrada.
Há em mim uma inquietude que sempre me fez correr atrás de ti.
Todos os dias te abracei inteira, pelo bem e pelo mal que me fizeste, sem nunca te culpar porque os caminhos eram os meus.
Agora, ao fim de tantos anos, finalmente as escolhas são tuas. Pedes-me paciência.
E o tempo, Vida?


Esta nossa conversa surge assim naturalmente, nascida do tédio dos meus dias iguais. Recuso-me, Vida a não ter uma palavra a dizer.
Hoje é o dia da minha  sombra cinzenta. Aquela que mascaro, aquela que vou  pintando de cores alegres, consciente  mas sem lamúrias, sem sentimentos de auto comiseração.  Eu sou assim, tu sabes Vida vou-te desafiando sempre.
Antigamente, mesmo quando entrava nos lugares mais escuros, eram as minhas escolhas, nunca te culpei de nada, lambi as feridas e segui em frente mas não era  coragem, apenas tentava ser justa contigo.
Acho que já quis ser tanta coisa, nunca fui quase nada. Não podia, estava a fugir de ti. Fui experimentando  outras vidas, vivi dores que não eram minhas até  ter a coragem de te enfrentar. Tinha-te deixado lá atrás, em suspenso.
E sabes, Vida? Afinal era verdade ela continuavas  lá, latente, pulsante, à espera de ser vivida.
Poderás fazer o favor de me deixar entrar ou terei que esperar pela nova viagem?
Eu sei, não é disso que se trata, esperar pela nova viagem. A Vida é esta.

Pedes-me para ser paciente, serei. Mas tenho medo do medo do outro. Aquele medo que só a dor da saudade pode vencer. Quantas Vidas serão precisas para ouvir “Fazes-me falta, aqui, agora, não amanhã?”

1 comentário:

  1. A vida é feita de ciclos e de etapas. O início de um novo projecto tem sempre o entusiasmo de quem se encontra determinado a enfunar velas e a lançar um barco a navegar em águas plenas de mudanças. Germana, estarei ao teu lado a acompanhar o crescimento do teu blog, com o entusiasmo da amizade de uma vida. Tenho a certeza que da tua lavra a colheita será sempre bonita. CRV

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