quinta-feira, 23 de janeiro de 2014


Claro que é ficção, não existem pessoas assim...


“O Senhor Engenheiro”


- Você  vai ficar na mesa lá ao fundo com o pai. Não se esqueça que não pode tirar as luvas, fale o menos possível com as pessoas mas sorria muito. O pai, já sabe, nada de desapertar a gravata ou ficar em mangas de camisa. Se lhe perguntarem alguma coisa, vendeu uns terrenos lá na terra e fez um dinheirito mas tudo muito vago, nada de pormenores. Fale pouco e sorria muito.
A mãe nunca tirou as luvas mas tagarelou animada durante todo o jantar, com a Dores.
- Os pais do Senhor engenheiro são um espectáculo.  Gente simples como nós, já combinamos uma sardinhada lá no campismo. Os paizinhos vão lá ter. O meu Oliveira está muito honrado. Não desfazendo, o paizinho é uma jóia
Estava tramado, agora tinha de organizar um almoço para os seus colaboradores na quinta da mulher. Tinha que evitar a todo o custo que os pais fossem a uma sardinhada no campismo, na roulotte daquela  que habitualmente lhe servia o café e tirava as fotocópias.
Tomou uma resolução: dali em diante quem lhe iria servir os cafés era a secretária, nunca mais queria ver a Dores a entrar-lhe no gabinete.
O “Engenheiro” nasceu numa vila do litoral, a Sul ou no Norte de Portugal, pouco importa. Teve uma infância infeliz, filho único de um pai  empregado numa bomba de gasolina e de uma  mãe que trabalhava a dias.
Durante a sua infância e adolescência, todos os  Verões eram passados  com os pais numa garagem, no meio de um calor sufocante. A casa da família era arrendada ao mês a uns senhores de Lisboa. Ele bem via a troça que eles faziam da Ceia de Cristo que a mãe tinha na sala de jantar. Comprara-a o pai na feira de Agosto, numa barraquinha ao lado do “Poço da morte”.
Odiava a Ceia de Cristo, odiava aqueles pais grotescos e odiava os Lisboetas que passavam os meses de Verão em sua casa. O chefe daquela família de  emproados era Director Geral de um qualquer Departamento  na Função Pública.
Na mesma proporção em que ao longo dos anos os dedos dos pais iam ficando encardidos pela gasolina a situação económica da família ia  melhorando. Um dia os pais compraram a bomba.
Foi estudar para o  mesmo colégio onde andava o  filho do Director Geral.
Fez faculdade e entrou na política, depois de ter passado pela Associação de Estudantes.
O antigo colega não era boa rés, tinha feito um desfalque na associação de estudantes, para desespero dos pais. Mas o antigo colega tinha um apelido sonante e não se importava de passar por seu amigo de infância mesmo sem nunca terem brincado juntos. Convidou-o  para Chefe do seu primeiro Gabinete.
Após uma perseguição feroz a todo o funcionalismo público, o “engenheiro” odiava-os a todos, desde as Donas Dores aos Directores Gerais, chegou longe.
Hoje é o dia  em que é o “candidato” de um grande partido político, está bem posicionado nas sondagens.
Tinham-lhe dito para levar os pais ao último jantar comício de encerramento da campanha,  muitos dos votantes iriam identificar-se com um candidato de origens humildes.
Concordou com os argumentos, levou  os pais sob a condição expressa de a sua a mãe vestir um casaco  tipo Chanel, ripar o cabelo no cabeleireiro e sobretudo não descalçar as  luvas em circunstância alguma.-GVP
    

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