sexta-feira, 14 de março de 2014

Para uma pessoa encantadora 

“Mal se apercebeu da minha presença, abriu aquele sorriso radioso tão seu.
Estive a ler-lhe os endereços das cartas pois tinha ido buscar o correio.


- Já não a via há tanto tempo minha querida, já tinha perguntado por si ao marido.


Depois, com uma candura de criança lá me esteve a relatar a sua ida a tribunal na semana passada. Foi servir de testemunha a um amigo que nos anos 60 comprou um terreno agora ocupado.
-Sou a única pessoa viva que se lembra do negócio. Sabe, filha? No final a Juíza levantou-se e deu-me os parabéns, disse-me que gostava de chegar um dia à minha idade tão bem como eu.
O seu timbre de voz forte ecoou pelo prédio e eu soube que era verdade o que me contava. Há pessoas que têm o condão de não nos deixarem indiferentes quando se cruzam nas nossas vidas.
Duas grandes dores tem esta senhora, a morte prematura do marido e o facto de ter cegado, ela que pintava quadros e vitrais.
Um dia confidenciou-me que é a empregada quem todos os dias lhe prepara as toilettes.

- Gosto de andar limpinha, de cabelo e mãos arranjadas e de roupinha a condizer. Não vejo quase nada mas gosto de andar bem.

Não se fechou nas suas tristezas, transporta o Sol todos os dias. No bairro todos a estimam, novos e velhos correm para tomar café com ela a meio da manhã.

Hoje, trouxe comigo as suas sonoras gargalhadas e a certeza que somos felizes se assim quisermos ser.
Muito obrigada, Senhora D. F… “ - GVP

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